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“São como um cristal / as palavras” Eugénio de Andrade

Diziam-me para ter cuidado. Se estava bem-disposto, era capaz de elevar um indivíduo aos céus, se tivesse a infeliz sorte de o encontrar indisposto, que me preparasse para o pior. Como em tempos de algum pessimismo se esquece o positivo, temia, confesso, o pior. Quando entrei no consultório, sentei-me sem pedir licença, ele também não me disse para o fazer, mas as cadeiras vazias convidavam-me. Que falta de educação, pensei recriminando-me.

“Diga. O que a traz cá?” Falei, tentei percorrer com o máximo de cuidado as veredas do longo percurso das doenças ancestrais; verifiquei, porém, que a narração apressada nunca se assemelhará à realidade; de mais a mais, é impossível relatar todas as dores, todas as maleitas que uma pessoa sente ao longo da vida, como dizia, sempre que visitava o médico, a minha mãe. A distância relativiza-as e amolece-as. Falei, por isso. Durante algum tempo, o fluxo da comunicação correu livremente e as minhas palavras deslizaram pela caneta permanente em direção a uma folha branca inserida num bloco de notas. Quantas vidas ali encaixadas, protegidas, escondidas?

Lembro-me de me ter questionado. Chegou a vez de ele tomar a palavra. É impossível recordar tudo com pormenor, por muito boa memória que se tenha. A minha alma registou, contudo, o mais importante, pelo menos o que considerei não dever ser esquecido.

“Sabe, há muita gente que vive no intermitente. E viver no intermitente durante muito tempo corresponde a viver numa situação de angústia e de incerteza, de indecisão. O meu conselho é ir ou para o vermelho ou para o verde, isto é, avançar para o verde, ou recuar para o vermelho. Faça o que fizer, só tem estas duas alternativas. Fuja dessa que acho que está a criar: a intermitente.” Achei pertinente a imagem, admiti, sorrindo interiormente.

Depois ainda acrescentou: “É importante recorrer ao diálogo, à conversa, única solução para combater o desânimo dos neurónios; eles gostam de desafios e as conversas inteligentes são o seu melhor alimento.” Continuei a achar que tinha razão e que tais palavras estavam cheias de sabedoria. Então falou no passado. É óbvio que o tempo cria uma compensação a quem vai perdendo tempo: a recordação do ido. “As pessoas que conhecemos ao longo da vida deixam sempre a sua impressão digital. Somos tanto mais ricos quantas mais impressões registarmos dos outros, pois somos o resultado de tudo o que existe no todo”. Pensamento profundo, pensei, filosófico, está na verdade a exceder as minhas expectativas. Ele continuou: “O meu professor primário foi uma das pessoas mais importantes da minha vida (recordei de imediato a minha que me emprestava os livros que os filhos não queriam ler e que contribuíram também para me transformar na pessoa que sou hoje.) Dizia ele que atrás de uma pessoa há um ser humano. Um dia estava na urgência e dei de caras com um idoso dobrado com dores. E mostrou-me umas borbulhas nas costas, uma alergia qualquer, como lhe disseram, que lhe provocavam dores terríveis. Ó homem, isso é a zona! Não é alergia nenhuma. Fiquei indignadíssimo. Foi então que o homem, com esforço desmedido, levanta a cabeça e me grita: Eu conheço esta voz! Eu conheço esta voz! Não te lembras de mim, rapaz? Olhei-o intrigado, devia estar enganado, de certeza. Eu sou o teu professor primário, não te lembras? Quase caí esmagado pela emoção. As lágrimas assomaram, atrevidas. A vida reserva-nos, de facto, momentos bons, procure expandi-los e tente relativizar os menos felizes, para não fazerem parte de si e para não interferirem com a sua vontade.” Concluiu e eu acenei feliz. Eu acabava de encontrar o que procurava há algum tempo.

De nada nos vale o queixume desmedido, se ao olharmos em redor percebemos que temos afinal tudo o que precisamos: respirar a vida. E palavras para falar dela.

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade