“Poucos se sentem capazes de exprimir descontraidamente a sua opinião se ela se afasta dos preconceitos do ambiente; a maior parte até é incapaz de chegar a formular tais opiniões.”
Albert Einstein
Apesar de os velhos do Restelo defenderem que o jornal tem os dias contados, continuo a acreditar na sua sobrevivência. Resiste graças a uma energia que soma a vontade de muitos, anónimos ou não, enfrenta desafios e avanços técnicos considerados inatingíveis pelo comum dos mortais, caminha ao lado de inovações de futuro, desbrava os trilhos da discórdia, das desavenças; revela, acompanha, noticia e dá opiniões. E o editorial que encabeça normalmente este meio de comunicação social é lugar privilegiado para o fazer. A opinião do outro é tão pertinente como a minha. Todas as nossas opiniões são dos outros, como diz Fernando Pessoa.
Ainda imbuída do espírito das férias, do relaxamento e do descanso, os vilameanenses provaram, como se noticia nas páginas que se seguem, que o verdadeiro espírito de comunidade e de partilha ainda está vivo. Festejou-se, comeu-se, bebeu-se, como é normal acontecer e… produziu-se lixo. Naturalmente. Posteriormente recolhido, como é o dever dos serviços comunitários.
O sistema Volta trouxe há algum tempo algum alívio solidário para muita gente. A satisfação de contribuir com um gesto simples para minimizar os malefícios da poluição ambiental e os ataques agressivos à Mãe Terra sobrepõe-se, creio, ao benefício dos poucos cêntimos recebidos. Afinal por essa Europa fora este gesto já se tornou intuitivo há muito tempo e resulta, por que não aqui? Infelizmente há sempre alguém que prevarica. Foram encontrados sacos com embalagens do Volta no lixo comum em Camarate. De quem é a responsabilidade, afinal? Um vídeo sobre o mesmo assunto foi publicado também no Facebook. De início duvidei, já não temos a certeza da veracidade das notícias, mas os sacos com garrafas vazias não eram ficção, nem resultado das manobras criativas da IA. Mais uma vez questionamos: de quem é a responsabilidade? Não irá, como é habitual dizer-se, a montanha parir um rato? É difícil manter a calma e calar esta revolta que cresce cada vez mais. Somos um país de brandos costumes. Brandos ou indiferentes? Onde está a nossa solidariedade? As nossas revoltas não têm voz? Ou são continuamente amordaçadas pelo laxismo geral? Curiosamente e enquanto redijo este editorial, ouço a notícia de um levantamento popular ocorrido na vizinha Espanha, por causa de uma octogenária que foi despejada da casa onde vivia! Tão vizinhos e tão distantes na atitude!
Os alunos perguntam-me muitas vezes por que razão continuamos a estudar um autor como Padre António Vieira, trezentos anos depois da sua morte. Continua a ser um modelo a seguir, um mestre a escutar, um humanista de excelência que o país tanto relativizou, argumento. Os homens não escutavam a sua doutrina, por isso resolveu pregar aos peixes. A quem se dirigiria ele, se vivesse no nosso tempo? Teria que escolher outro público, pois os peixes provavelmente teriam dificuldade em escutá-lo, não por falta de interesse mas por causa da poluição de todo o tipo que povoa os nossos mares. A escolha seria muito, muito difícil. Mas a verdade é que a alegoria “os grandes comem os pequenos”, dirigida aos peixes, mas aplicada aos homens, continua intemporal. Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras, como diz o nosso orador.
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