“Respeitar o próximo, comportamento basilar de uma vida honrada, nem sempre vai garantir que o próximo respeite você, mas vai demonstrar, sempre, para ele, que você possui a dignidade excelsa, que ele não tem, meritória de um ser de princípios elevados.”
Vinícius Fonseca Nunes
“A minha pátria é a língua portuguesa”, dizia Bernardo Soares, um semi-heterónimo de Fernando Pessoa, tantas vezes citado. Falada, a língua vive na realização comunicativa dos seus agentes; morta, deixa de ser falada, embora continue nos seus registos escritos, como é o caso do latim. Sujeitas à lei da evolução e dos tempos, muitas palavras ganham sentidos, perdem força ou simplesmente desaparecem. A estas últimas chamamos arcaísmos. Vem este intróito a que propósito? A propósito da palavra respeito. Respeito por nós mesmos, pelos outros. O dicionário está prenhe de significados. É um sentimento, cito, que nos impede de fazer ou dizer coisas desagradáveis a alguém; apreço, consideração, deferência. Interessa acrescentar que a palavra vem do latim respectus, que quer dizer olhar de novo, ou prestar atenção a algo com valor. Tão importante como a relação de respeito com os outros, encontra-se o respeito por nós mesmos; aqui incluiria, obviamente, os cuidados relacionados com a alimentação, pois, apesar de tantas informações a favor de uma alimentação saudável, as opções sensatas são absorvidas pela atração da oferta consumista, mais sedutora e facilitadora; poderia falar também do esmero corporal, que muita gente leva ao excesso, através de dietas extremas ou através da manipulação de formas genéticas. De acordo, se me lançarem o argumento da autoestima, direi apenas que há um tempo para crescer, outro para ser. Mas o grande objetivo de hoje é abordar a questão, tão controversa e multifacetada, do respeito pelo outro. Melhor, da falta dele. A onda egoica prolifera e cresce cada vez mais, muitas vezes estimulada pelo pequeno ecrã, que todos conhecemos, sugador de mentes e de consciências, criador de mundinhos individualizados. Esta é uma situação muitas vezes reportada. Argumentarão com os seus vantajosos préstimos, por outro lado. Sem dúvida. Mas urge estabelecer limites ao poderio das máquinas para não perdermos a identidade como seres humanos. Depois há também o desrespeito pela Mãe-Terra, que nos abriga e nos dá colo. Não falo apenas nas várias formas de poluição, refiro-me antes à vaga de incêndios que se ritualizaram, transformando-se numa autêntica pandemia de verão.
A abordagem foi meramente teórica e circunscrita a algumas áreas. Outras mereceriam obviamente referência, como as máscaras usadas por pessoas de bem ou a desigualdade social, que vitimiza tanta gente, o abandono dos idosos e dos animais, a desconsideração pelo trabalho dos educadores… Enfim, passemos à prática. O exemplo é o melhor mestre, diz-se, é o momento em que o conceito se avizinha da realidade. Dizia-me há pouco um amigo que apoiou uma associação, gratuitamente, em prol do bem-estar das crianças que, indiferentes à malícia dos adultos, pretendiam apenas aprender a melhor forma de pontapear a bola e, ao mesmo tempo, de usufruir dos bons momentos em agradável companhia. Os pais confiavam e ele acreditava na validade da sua ação. Durante alguns anos, repetiu os mesmos gestos, conheceu pessoas, amou pessoas, entregou-se, foi fiel aos seus princípios. Porém, percebeu que era relativizado demasiadas vezes, nos eventos sociais, como festas e convívios, e na participação comunitária; sentiu na pele a desconsideração por parte dos pares. Um dia demitiu-se, entregou a pasta, salvou-se, disse ele. Teve de ser substituído, mas o substituto exigiu pagamento. A comunidade respeitou as exigências e continua a respeitá-las. Aqui chegados, surge a pergunta: afinal o respeito tem preço? Um produto dado é inferior ao mesmo se for vendido? Não se entende. Quando publiquei o meu primeiro livro para crianças, fiquei tão orgulhosa do meu trabalho que ofereci livros a muita gente. Não precisei de muito tempo para perceber que as pessoas não o valorizavam, porque era oferecido, era de graça. (É o velho paradigma de que o que é caro é bom, o que é grátis não presta!) Infelizmente, este é o retrato de uma sociedade de consumo, não apenas de consumo material, mas também de paradigmas gastos que colidem com os valores que sempre defendi.
01Pelo exposto, conclui-se que esta palavra – respeito – será mais uma, como tantas outras, em vias de extinção. Palavras imbuídas de valor, como compaixão, aceitação, afeto, solidariedade, humildade, que mudaram consciências e contribuíram para o crescimento da humanidade; foram elas que me conduziram, a mim e a tantos outros, até aqui; foram elas que alicerçaram a nossa formação de melhorar e de bem fazer. Acreditem que há palavras novas que espreitam pela oportunidade da sua lexicalização, para se instalarem como veículo das gerações futuras. E as palavras também têm poder e podem albergar duplos sentidos.
QUER RECEBER O NOSSO JORNAL?
Ao assinar a nossa newsletter iremos enviar todos os meses as notícias da atualidade local e do concelho



