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Anho Assado com Arroz de Forno: A “Bíblia” de uma tradição apresentada no Marco de Canaveses

A Confraria do Anho Assado com Arroz de Forno assinalou, a 9 de julho, o 20.º aniversário com um marco histórico: a apresentação pública do estudo científico “Anho Assado com Arroz de Forno: Afetos, História e Tradição”.

O evento, que decorreu no Emergente Centro Cultural, revelou a conclusão de três anos de investigação profunda sobre aquela que é uma das joias da coroa da gastronomia desta região.

Para Luís Brás, chanceler da Confraria, o momento representou o culminar de um sonho antigo, delineado desde 2018, para dotar a região de um documento de referência.

“Andamos a pensar nisto há algum tempo para efetivamente termos a Bíblia do nosso anho assado com arroz de forno”, afirmou o chanceler, sublinhando o caráter arrojado de um projeto que muitos consideravam impossível devido ao elevado investimento — de várias dezenas de milhares de euros — e à complexidade da investigação.

“Era isso que nós pretendíamos e é isso que apresentamos hoje. Algo diferente, algo bastante arrojado da nossa parte enquanto chancelaria, mas que efetivamente se conseguiu”, comentou.

O estudo, suportado pela Confraria, pelos seus confrades e por diversas instituições locais, visa perpetuar a receita e garantir que o legado chegue às gerações futuras.

Luís Brás recordou ainda as origens da instituição, fundada há duas décadas por Manuel Moreira, antigo presidente da Câmara do Marco, e um grupo de 50 cidadãos, com o objetivo de criar algo “diferenciador” para o município e para Portugal.

A coordenação científica do trabalho ficou a cargo da Stay to Talk – Instituto de Imersão Cultural. Carolina Mendes, responsável pela investigação, destacou que esta obra não é meramente um livro de culinária.

“Este não é apenas um livro sobre gastronomia, é acima de tudo um livro sobre pessoas, sobre as memórias que sentam à mesa, sobre os gestos que passam de geração em geração, sobre os saberes que se aprendem fazendo e sobre a identidade de um território que encontrou num prato uma das suas expressões culturais mais autênticas. Enquanto coordenadora deste estudo científico, tive o privilégio de acompanhar um percurso de investigação que procurou ir muito mais além da receita. Procurámos compreender como nasce uma tradição, como ela evoluiu, porque permanece viva e sobretudo porque continua a reunir famílias, comunidades e visitantes em torno de uma mesa”, explicou, evocando o pensamento de Tolentino de Mendonça que “a alimentação não é apenas um ato biológico, mas uma experiência de encontro, cuidado, memória, hospitalidade e construção de comunidade. A mesa para ele e para nós é um dos lugares mais profundos da experiência humana.”

O estudo procura responder a questões fundamentais para a identidade local, como a origem da designação “anho”, preferida na região em detrimento de “cordeiro” ou “borrego”, ainda a relação da receita com as raças ovinas locais, a evolução das formas tradicionais de confeção no forno de lenha e a identificação de medidas de salvaguarda para equilibrar a inovação e a preservação.

Para a comunidade este trabalho é um convite ao reforço do orgulho local e um incentivo para continuar a proteger e transmitir um saber-fazer que, mais do que alimentar o corpo, alimenta os afetos de um território.

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