Fui há pouco tempo convidada para assistir à apresentação de um livro no Celestino Café/Bar, em Vila Meã. Fui com gosto. Não é preciso muito para uma pequena noite se transformar numa experiência que nos marca para toda a vida. Retenho dessa noite a imagem da resiliência, da coragem, da nobreza de alma. Embora as palavras não tenham o poder de revelar as emoções mais profundas, confiei nelas para dedicar ao autor o poema que partilho com os leitores deste jornal. Nuno Meireles é portador de Paralisia Cerebral e utiliza os pés como se fossem as suas mãos, como refere na sua apresentação. Ao Nuno Meireles
Não me perguntem de onde vem esta vontade desconhecida
que brota de mim
metamorfoseada em palavras
que todos os dias nascem e me fogem.
Sou apenas um fantoche frágil
conduzido pelo doce amor de alguém
que me recebeu como sou.
Não tenho voz como os outros
com o verbo afinado e retórico
nem um corpo livre
recheado de sentidos bons
nem mãos para semear desejos e limpar ausências.
Os meus braços desenham gratidões que só eu vejo
postes de uma luz que me ilumina
os meus dedos são esboços que apontam caminhos
que apenas eu sigo
as minhas pernas coladas à terra
aprisionam-me e seguram-me
apenas os meus dedos me escrevem
e definem
o meu sorriso
e os meus olhos.
Sou inteiro afinal.
Eu sou os meus olhos, o meu sorriso, os meus dedos
e sou ainda os que me amam,
sou o doce amor que me recebe como sou.
Sou tão inteiro
afinal.
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