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“Sombra Imperfeita” é o novo livro de António José Queiroz

“Sombra Imperfeita” é  o mais recente livro de António José Queiroz, publicado pela Editora Officium Lectionis, recolhe 56 poemas escritos pelo vilameanense entre 2010 e 2025.

Para o autor “Sombra Imperfeita” é um livro de procura. “Procura de memória, de beleza, de verdade, de reconciliação com o tempo. Cada poema é um gesto de escuta diante do mistério das coisas simples: o vento nos campos, o rumor do mar, a quietude de um quarto, a luz que atravessa uma janela”, revelou ao Jornal de Vila Meã.

Na sessão de lançamento do livro, que decorreu a 29 de Maio, no auditório da Biblioteca Municipal de Penafiel, o autor contextualizou os presentes acerca do seu novo livro. 

Este livro nasceu devagar, como nascem certas memórias: primeiro como um rumor distante, depois como uma sombra que insiste em permanecer”, começou por referir.

Situou os presentes de como está estruturado o livro de pomas: “Os poemas que o compõem não seguem uma linha recta nem obedecem a um programa. São fragmentos de uma travessia interior — clarões de infância, ecos do amor, inquietações da solidão, meditações sobre a arte, o tempo, a errância e o destino humano”.

Assume o autor que o livro leva o leitor numa viagem por  vários lugares: “Ao longo destas páginas percorro lugares reais e imaginados: a casa antiga da memória, os jardins da adolescência, as paisagens do pensamento, as cidades onde a história e o mito se entrelaçam. Surgem também encontros com a pintura, a escultura e outras artes, que, cada uma à sua maneira, procuram dar forma ao silêncio e à passagem do tempo”.

Para António José Queiroz “a sombra que atravessa estes poemas não é apenas a da perda ou da melancolia. É também a sombra daquilo que permanece incompleto no ser humano. Se existe em nós uma imagem do divino, ela chega sempre marcada por imperfeição, dúvida e desejo. Talvez seja precisamente nessa imperfeição que reside a nossa liberdade — a possibilidade de procurar, de errar, de criar sentido onde o mundo parece apenas dispersão”.

Numa forma de conclusão referiu aos presentes que “se alguma unidade existe nestas páginas, ela está no olhar que as percorre — um olhar que tenta compreender o mundo sem o reduzir, que aceita a fragilidade da existência e que, apesar de tudo, continua a procurar no silêncio uma forma de esperança”.

Para os leitores deixa uma sugestão: “que caminhe por estas páginas como quem entra num jardim antigo. Algumas veredas conduzem à memória, outras à imaginação, outras ainda ao silêncio. Em todas elas permanece, discreta, a mesma pergunta: o que significa, afinal, habitar o tempo e a vida?”

Note-se que a apresentação deste novo livro do vilameanense António José Queiroz esteve a cargo dos professores Jorge Teixeira e Rui Teixeira.

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Algoritmo

O quadro branco espera a equação,
entre nomes sem rosto e rostos sem nome.
A fome escreve-se com zeros,
a febre com um, depois outro, depois silêncio.

Quem programa o critério, programa o corpo:
idade, função, probabilidade de regresso.
Cada urgência é uma porta estreita
onde cabem apenas os números justos.

Guerra: criança ou soldado?
Pandemia: pulmões novos ou pulmões gastos?
Nas filas do hospital, cada respiração
aguarda a sentença sem juiz visível.

Chamam-lhe triagem, chamam-lhe ciência,
mas é um poema truncado, sem rima,
onde alguém decide se o amanhã tem dono
ou se o amanhã não se escreve.

E, no entanto, o algoritmo hesita,
porque a matemática não conhece o remorso.
Resta-nos o erro humano –
a única variável que ainda ama.

(Poema de António José Queiroz)

 

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