“Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.” Simone de Beauvoir
Acedi ao convite, com muito agrado, para participar numa conversa sobre o 25 de abril. 52 anos depois, esta data continua a movimentar as pessoas, a tocar nas sensibilidades, a envolver curiosidades e a fomentar questões. Onde estava eu quando aconteceu? Onde estava a minha consciência política quando a consciência do homem português assumiu forma e quis mudar a situação que mantinha o país suspenso? Onde estávamos todos nós? A noite girou em torno destes tópicos. E foram momentos de partilha entusiasmada e quente. Quando se é adolescente, como eu era, a não ser que as circunstâncias o condicionem, há propósitos bem definidos, mesmo vivendo a fase da insegurança e da incerteza tão características da idade. São supostamente pouco ricas e bem diferentes, ajuizará o cidadão comum, as vivências numa aldeia afastada dos grandes centros urbanos. Há uma certa razão nisso, pois, na verdade, o meu foco principal concentrava-se na aprendizagem e na colheita de saberes, fundamentadas nos modelos mais próximos, nas experiências dos pares, familiares, vizinhos e amigos e ainda nas leituras a que tinha acesso. (Os livros eram raras preciosidades que eu obtinha, graças à minha sede de aprender e à minha exemplaridade como aluna e como pessoa; permitiam-me entrar noutros universos, e inevitavelmente também foram construindo a minha identidade). Foi mais tarde, quando saí do espaço que me viu nascer que conheci o verdadeiro 25 de abril. Digo habitualmente que fui eu que o procurei, e encontrei-o em testemunho vivos e em registos escritos tão diversos e profícuos, obviamente. Conversou-se, pois, viveram-se momentos muito agradáveis de partilha. Este momento histórico, seja de que maneira for, continua a viver na memória de cada um de nós. Porém, não posso deixar de acrescentar que o que aqueceu verdadeiramente a noite foi o facto de estamos juntos, como pessoas, como comunidade, como alguém que sai de casa, de cravo na mão e de coração cheio, para celebrar um momento único, que uniu o país e as pessoas que o constituem. É um ritual que se mantém há mais de meio século. Os rituais também preservam o conceito, mantêm vivos os momentos e as pessoas.
Cantámos, lemos, festejámos. Há muitos anos, quando a comunicação escrita era escassa e pouco habitual, as pessoas juntavam-se para ouvir as notícias. Alguém lia o jornal para que todos acedessem às notícias. A história e a consciência trouxeram-nos a palavra escrita e com ela a verdade de sermos pessoas. Palavras como liberdade, crueldade, opressão, censura ou ditadura dominaram a noite e foram trazidas várias vezes para a conversa.
Acedi ao convite, com muito agrado, porém o mais importante, repito, foi o reencontro de gente, de almas que caminham no mesmo sentido, que vivem na mesma comunidade e que se preocupam com o bem comum. Hoje, é lamentável dizer, normalizou-se a ditadura do ecrã, do telemóvel, do isolamento, tornando-se cada mais raros estes encontros, estes momentos de partilha. Haja mais encontros. Venham mais cinco, como diz a canção, seis, sete, os que acharmos por bem.
O poema que se segue é de Bocage, um poeta do século XIX. Um pouco diferente dos que habitualmente conhecemos, mas é genuíno, assertivo e extremamente sugestivo.
Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;
Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Manuel Maria Barbosa du Bocage
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