Quando o apoio às empresas pressupõe crédito que compromete dívida

Passado algum tempo da catástrofe, esta afirmação do presidente da Câmara de Leiria não podia ser mais clara — “ainda é a banca que vai ganhar dinheiro com o mau tempo” — e merece uma reflexão!!

Os mecanismos anunciados para apoiar empresas afetadas por situações extremas de calamidade continuam a assentar, em grande medida, em soluções de crédito. Mesmo quando apresentados como condições “favoráveis”, rapidamente percebemos que há custos associados: spreads, indexação à Euribor e outros encargos que, no limite, transferem o peso da recuperação para quem já está fragilizado.

Durante a pandemia de COVID-19, muitas empresas foram forçadas a recorrer a crédito para sobreviver a um longo período de paragem forçada e restrições impostas por decisão pública, com reflexos extremos no trabalho, na economia e sustentabilidade. Esse recurso massivo ao financiamento bancário criou uma dependência estrutural que ainda hoje condiciona a gestão de muitas organizações, limitando a sua capacidade de investir, crescer e inovar.

Voltamos agora ao mesmo paradigma: perante uma crise — neste caso, provocada por fenómenos climáticos — a resposta continua a ser contrair dívida.

Mas empresários que sofreram danos significativos nas suas empresas, pavilhões industriais, afetando estruturas, telhados, equipamentos ou capacidade produtiva, não precisam de mais encargos financeiros. Precisam de condições reais para recomeçar. Precisam de confiança. Precisam de previsibilidade. E, acima de tudo, precisam de políticas públicas que reconheçam que nem todas as crises podem — ou devem — ser resolvidas com crédito.

Isto não significa ignorar o papel da banca na economia. Pelo contrário, o sistema financeiro é essencial para o funcionamento e dinamização do tecido empresarial. Mas a sua intervenção não pode substituir, nem deve condicionar, a responsabilidade do Estado em assegurar respostas adequadas a situações excecionais.

Apoios a fundo perdido não são um “benefício”, são muitas vezes a única forma de garantir continuidade económica e preservar valor — local e nacional.

Quando os governos optam sistematicamente por soluções baseadas em crédito, não estão apenas a adiar o problema. Estão a reforçar um ciclo de dependência do setor financeiro, que nem sempre acompanha as empresas nos momentos mais críticos com a flexibilidade que seria expectável.

Talvez esteja na altura de repensar e00ste modelo. Porque apoiar a economia não deve significar endividá-la ainda mais.

Será que queremos continuar a responder às crises endividando quem já está em dificuldade, ou estamos dispostos a repensar o modelo de apoio às empresas?

Miguel Carvalho

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