“Podes cortar todas as flores, mas não podes impedir a primavera de aparecer.”
Pablo Neruda
Falemos da primavera. Falemos do que nos é mais próximo, da nossa realidade, da nossa circunstância, da simplicidade que nos torna inconscientemente felizes. Não senhor, dirão os mais exigentes, os mais afoitos; que baixeza, falar de algo tão banal, tão próximo, tão conhecido, acrescentarão. Ora, ora, quem é que não sabe o que é a primavera? Até uma criança sabe! Precisamos é de ouvir algo que não conhecemos, que nos motive, que nos entusiasme. Precisamos? Trata-se de uma simples interrogação retórica. De tão assoberbados pelas notícias que não nos pertencem, embora façamos parte da globalidade, corremos o risco de perder o verdadeiro sentido da nossa essência, da nossa efetiva orientação. Falemos da primavera, teimo. Será uma forma de relaxamento. Uma forma de inspiração suave e lenta, no meio da agitação desenfreada de todos os dias. A palavra deriva do latim, primo vere, que significa “primeiro verão”. Assim, é a estação do ano que precede o verão e as temperaturas amenas, e é associada ao reflorescimento e ao despertar da Natureza. Do ponto de vista da astronomia, a primavera do Hemisfério Sul inicia-se no equinócio de setembro e termina no solstício de dezembro, a do Norte inicia-se no equinócio de março e termina no solstício de junho. A estação, assim como as demais, não ocorre simultaneamente nos dois hemisférios: enquanto num deles é primavera, no outro é outono. Toda esta informação é do conhecimento geral. E a que se segue? Vejamos:
Segundo a mitologia grega, Perséfone está inevitavelmente associada à primavera, pois ela é a deusa da maturação das flores e frutos, dos equinócios, mistérios agrícolas e rainha do Submundo. É filha de Zeus e de Deméter, é a deusa da agricultura e das estações do ano. Criada na planície de Nysa, entre as ninfas, Perséfone foi raptada por Hades, sob as ordens de Zeus, e tendo consumido sementes de romã, a deusa tornou-se a esposa do senhor do Submundo e a rainha dos mortos. Depois do seu rapto e estadia no Submundo, a deusa é conduzida pelo meio irmão Hermes até a superfície. O consumo da romã fez com que Perséfone passasse a morar metade do ano no Olimpo na primavera e no verão, e a outra metade no Submundo, nas estações de outono e inverno. Quando ouviu o grito de socorro de Perséfone, Deméter inicia a sua busca desesperada pela filha. Ninguém lhe queria contar o que aconteceu, temendo contrariar a escolha de Zeus. Depois de nove dias de busca, Deméter descobre, através de Hécate e Hélio, que Perséfone tinha sido levada para o mundo dos mortos. A deusa disfarça-se entre os mortais e, em protesto, lança a sua fúria sobre os deuses e os mortais, fazendo com que a terra perecesse e os deuses deixassem de ser louvados. Isso motivou Zeus a pedir para Hermes ir buscar Perséfone ao reino de Hades. Como Perséfone tinha comido a romã, concluiu-se que não tinha rejeitado inteiramente Hades. Assim, estabeleceu-se um acordo, ela passaria metade do ano com a sua mãe e o restante com Hades, justificando assim o ciclo anual das colheitas.
Quando olhar em redor e sentir o afago do sol, pense na generosidade de Perséfone.
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro
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