A matança
Não penses
que a carne apenas é aquela oca
lívida carcaça
em imóvel galope alucinado,
embarrada numa trave da adega.
Não penses
que o milagre anual da salgadeira
vem sem morte e sem trabalhos. Não:
Contar-te-ei
que primeiro atam o porco em sua loja
com uma corda em torno do focinho
e o arrastam à força para o ar lavado e frio.
Contar-te-ei
que o porco luta e resiste: ora sentado
sobre os quartos traseiros (os futuros presuntos),
ora comicamente no solo as quatro patas
fincando com bravura se defende
da mal agourada violação. Por fim, cedendo,
colocam-no, ainda contrafeito,
entre roncos, bufos e sacões,
no banco, deitado sobre o lado,
por forma a expor o vulnerável,
comestível coração.
Contar-te-ei
que quando a faca penetra nas entranhas,
qual punhal vingador de antiga fome,
o grito é tal, tão desolado e aflito,
tão humano, tão digno de compaixão,
tão de criatura insultada e indefesa –
que tenho de tapar a mãos ambas os ouvidos
e recuar para os fundos da casa,
onde o rumor mal chegue. Ainda assim,
a voz implorativa é uma cascata,
uma cascata lenta e descendente,
em que o animal se esvai.
Quando calado – o sangue
jorrando impetuoso no alguidar –
é sinal que
o porco é morto:
viva o porco!
A. M. Pires Cabral, in ‘Algures a Nordeste, Catálogo de simples, feios e humildes’
É um poema forte, duro, bárbaro, o que escolhi para iniciar este editorial. É certo que sim. É o registo de uma crueldade assistida, perpetrada em tempos idos sobre um animal, e à qual assisti, na infância, tapando os ouvidos, como o poeta, porém, com o objetivo de solucionar a sobrevivência de tantas famílias. O porco morria para se doar aos homens. Entenda-se. Depois de sermos bombardeados com tantas notícias sobre violência e sobre a crueldade humanas (e obviamente que não podia deixar de referir o caso mais monstruoso de todos, o de Jeffrey Epstein), considerei ser esse um tema adequado para este mês. Confesso que comecei. Desisti. O asco e o nojo buliram com a minha dignidade de pessoa e de mulher; Os relatos envergonham a condição de ser humano. Por isso escolhi este poema. Sem pretender ofender nem chocar ninguém, vejo, neste porco, todas as vítimas, mulheres, adolescentes, crianças, que continuam eventualmente a viver, mas morrem, porque lhes são roubados direitos, dignidade, honra, amor-próprio, o que de mais sagrado e importante há na vida.
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