O “Queimar dos maus” para recuperar tradição

Queimaram-se os maus em Vila Meã. Como uma espécie de ritual, queimaram-se os maus presságios, as más vibrações e o que de menos bom aconteceu no ano passado, para que 2026 traga o melhor. Foi a 10 de janeiro deste ano que, com uma grande fogueira acesa no Largo do Estádio do Atlético Clube de Vila Meã, se iniciou o que a Associação Empresarial de Vila Meã quer tornar tradição a cada final de ano.

A queima das tristezas do ano velho e a renovação da esperança para o Ano Novo estava prevista para o final de 2025, iniciativa inserida no conjunto de atividades natalícias da “Linha Encantada”, mas as condições atmosféricas adiaram-na para o início do ano. A população fez-se presente, sendo este primeiro ano composto por muitos vilameanenses que se quiseram associar à dinâmica. A Junta de Freguesia de Vila Meã providenciou o papel para que a queima dos maus ficasse registado com o punho de cada um, enquanto degustavam um cálice de vinho do Porto e brindavam ao novo ano. Assim, o deitar os maus à fogueira teve outro significado, estando cada um de nós, efetivamente a queimar o que não traz felicidade para o novo ano.

A música tradicional foi presença acertada. O Grupo de Cantares e Danças de Santa Cruz de Riba Tâmega e o Grupo Folclórico de Santa Cruz de Vila Meã trouxeram o cantar das Janeiras para junto da fogueira. O Grupo Coral, Desportivo e Recreativo Estrelas da Paz (Oliveira), também se associou ao evento.

A envolvência do momento pedia música tradicional e o aconchego que o cantar das Janeiras leva a cada casa, e, junto à fogueira, todos disfrutaram também da música e da dança do folclore que os dois grupos vilameanenses trouxeram a este encontro. A grande fogueira aqueceu o fim de tarde frio, iluminou o recinto e proporcionou um momento único de convívio.
Filipe Vasconcelos, do Grupo Folclórico de Santa Cruz de Vila Meã, elogiou a iniciativa da AE Vila Meã. No entanto, não deixou de notar que o que foi feito neste fim de tarde não é uma cópia de uma tradição transmontana, mas um retomar das tradições desta região.

“Como era e ainda é tradição, a missa do Galo, à meia-noite no Natal, a tradição de fazer arder o madeiro também estava cá na nossa região”, afirmou.

“Isto não é uma invenção”, comentou, recordando que em mil e novecentos era tradição fazer-se uma fogueira à entrada da igreja e tinha até um rito que era de acender as velas, porque havia o rito de acender as velas na noite de Natal, representando aquilo que hoje a Igreja substituiu pela luz de Belém, que é espalhada pelas paróquias.

“Na época fazia-se assim uma fogueira. Portanto, vemos isto como um reavivar de uma tradição de há muito tempo”, falou-nos um dos elementos do grupo que “vai calcorreando pelas tradições do folclore, desde 1974, promovendo aquilo que são os usos e costumes de Vila Meã”.

O Grupo de Cantares e Danças de Santa Cruz de Riba Tâmega também trouxe para o evento as danças de roda, convidando os presentes a dançar. Para Eduardo Queirós, porta-voz do grupo “foi com bom grado que aceitamos o convite”.

“Tudo o que é feito na freguesia em prol da freguesia é bom. É verdadeiro espírito de união juntar dois grupos folclóricos”, comentou.

O grupo apresentou as danças de roda para os mais novos poderem participar também e para se sentirem úteis no grupo. Eduardo Queirós referiu-nos que “viemos também Cantar as Janeiras e os cantares que eram considerados cantares ao Menino, que aconteciam na altura do Natal, pelo nascimento do Menino Jesus. Eram feitos esses cânticos ao Menino Jesus e em nome do Menino Jesus. E foi isso que nós apresentamos aqui hoje.”

A Junta de Freguesia de Vila Meã foi parceira do evento e os elementos do executivo viveram também com entusiasmo esta tarde. Henrique Sousa, presidente da Junta de Vila Meã, considerou esta “a primeira grande fogueira do queimar dos maus”.

“Acreditamos que todos os anos teremos esta mesma fogueira. Ou seja, hoje é dia de criar tradições”, asseverou.

Para o presidente de junta, o envolvimento da comunidade é fundamental: “Chamamos os ranchos, convidamos os nossos grupos folclóricos de Vila Meã para que todos juntos possamos não só respeitar as tradições, respeitar a cultura e identidade de vila, mas também, de certa forma, começarmos aqui a criar tradições, novos eventos e por isso nos associamos a esta atividade, pensada em conjunto, e que correu bem. Estamos aqui também com a colaboração de várias associações, várias entidades privadas e em conjunto a criar a união da comunidade.”

Foi a primeira vez que a comunidade vilameanense “Queimou os maus” e para o vice-presidente da Associação Empresarial de Vila Meã, Domingos Amaro, “tivemos aqui uma moldura bem composta. Foi a primeira vez. Acho que é um conceito muito interessante e criamos algo de novo. Esperamos que se mantenha e continue”. Considera Domingos Amaro que “é este o espírito também da Associação Empresarial. Quando pensamos em atividades, não é juntar a população apenas na lógica empresarial, mas há algo maior! Envolver toda a população é dinamizar Vila Meã e a região no seu todo”, enfatizou.

Ainda no envolvimento da fogueira, enfatizando “a queima dos maus” como um bom presságio para este novo ano, na alegria do encontro, na harmonia das cantigas das Janeiras, mas também das danças tradicionais que perduram na identidade profunda das gentes que herdam e prosperam os bons costumes, no afeto da união que iluminou o contentamento de todos quantos, queimando os maus do ano velho, e iluminando de boa esperança o que vem, assim se deseja que o novo ano seja próspero na comunidade de Vila Meã.

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