“Só ao homem é possível, em si mesmo, harmonizar opostos, sintetizar tese e antítese, conjugar o masculino do Sol e o feminino da Lua.”
Hermógenes de Tarso
Não é por mal, dizem, são mesmo assim os jovens de hoje, nada a fazer. São vozes compassivas estas, que escutamos, sábias, podemos dizer, mas que revelam pura parcialidade e desconhecimento de outras verdades. E, como não podia deixar de ser, há muitas realidades, outras realidades que inevitavelmente coexistem. Não disse “chocam”, porque numa sociedade supostamente justa todos têm direito à sua opinião; quanto ao dever de escutar, é já um pouco discutível, pois é apanágio do livre-arbítrio ou da tão nobre e prezada individualidade. Como dizia, melhor, como escrevia, justifica-se a atitude dos jovens de hoje com variadíssimos argumentos: os tempos; as mudanças a todos os níveis, como a aceleração da informação desenfreada e da pressa do novo; a ansiedade associada à necessidade de pertença; a conquista de uma felicidade prometida; a impaciência de construir algo novo ou ainda o receio de perder o comboio da identidade. Nunca o mundo assistiu a tanta massificação, apesar da obsessão pela singularidade.
Também me considero uma alma compassiva, porque convivo com os jovens há muitos anos, e, como educadora, continuo a valorizar qualquer inovação no processo de crescimento e aprendizagem. E continuo a defender acerrimamente o nobre papel da profissão de educador / professor, pois mais do que uma profissão é uma missão, apesar do descrédito que lhe tem sido atribuído. E entendo que a sabedoria que veiculamos congelou no tempo e colide com a energia que os jovens transportam e que projetam diabolicamente para o futuro e que não têm dirigida ainda. Não porque não saibam, mas apenas por razões biológicas e sociológicas.
Assim sendo, podemos considerar que, numa das faces da moeda, se encontra a primeira longa verdade.
A outra, talvez mais breve e socialmente menos visível é a verdade dos que acumularam experiências, saberes, e que são varridos para debaixo do tapete das conveniências. Os antigos, não os velhos, têm de aceitar as outras verdades, são obrigados a compreender, se não o fizerem são simplesmente banidos. Vejamos, se os jovens são inteligentes para resolver equações de qualquer tipo, deveriam também saber ou aprender a equacionar a aceitação e o respeito pelos outros, e aqui incluo obviamente todos aqueles que partilham com eles a vida. Há muito tempo que esta história me acompanha, a de um homem que, impelido pela tradição, levou ao monte o seu idoso pai, para morrer, que era uma forma de minimizar as problemáticas sociais e as consciências individuais. Quando chegaram ao topo, o velho pai rasga metade da manta que o cobria e entrega-a ao filho, dizendo que serviria para o momento em que o neto procedesse da mesma forma. Aqui a história fica em aberto e há apenas duas possibilidades. Eu gosto de contar aquela versão que nos revela que o filho pegou no pai e o levou de novo para casa, pois a consciência falou mais alto. Mas a outra também é possível: apesar do grito silencioso do pai, o filho virou costas e abandonou o progenitor à sua sorte. Esta última acontece mais frequentemente do que supomos.
A moderação é necessária. Não se coloca a questão de quem é que precisa mais de quem. É simplesmente o equilíbrio. O presente é um presente que deve ser valorizado pelo passado que veicula e que se projeta obviamente no futuro. Quem não tem passado não pode ter futuro. E a humanidade precisa urgentemente deste equilíbrio.


