“Bendita seja a data que une a todo mundo numa conspiração de amor.”
Hamilton Wright Mabi
O Natal é, de facto, um tempo mágico. Apesar das bandeiras do consumismo se erigirem como acusação primeira por parte de alguns, mais por prazer de levantar a voz do descontentamento do que por razoabilidade – todos somos necessariamente consumidores num tempo em que ninguém consegue autoregular-se com o que produz – , não podemos negar que é um tempo mágico, repito. As luzes iluminam as cidades, as vilas, os lugares onde vive gente, sendo certo que também escondem as fomes, as necessidades e as dores de muitos. As músicas tocam nos corações dos homens, apelando para gestos de paz e de compaixão, embora a guerra viva bem perto, não só a que arrasa civilizações e culturas, mas também a que emparceira connosco, no nosso percurso diário, no simples virar da esquina. Há uma azáfama alegre no ar que nos permite aceder ao passado, às origens comuns, a uma certa forma de infância feliz e despreocupada.
Celebramos o Natal como um tempo de partilha, de comunhão, de alegria, de festa, vivido em família. Viver em comunidade é também viver em família, à volta de uma mesa comum. É uma família social e alargada, um lar onde todos podem entrar. Este conceito ficou provado mais uma vez, este ano, em Vila Meã, através de pequenos/grandes gestos de partilha levados a cabo por tanta gente de boa vontade. É este o rosto do espírito natalício tão propagado, que aqui fez e faz sentido e que se viveu em todos os lugares.
Dar e receber, na mesma proporção. O Pai Natal continua a ser o ícone que representa esse espírito agregador, que nos une. Fica o registo do que se fez, mas que fique bem vivo no coração de cada um de nós. Boas Festas!
Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira


