Em setembro, poderia o tema do meu editorial ser o regresso às aulas, os incêndios que durante o verão teimaram em assolar o país, as guerras que continuam a destruir vidas, a inconsciência e a crueldade das governações ou mesmo as eleições que se aproximam ( e seria este um tema mais do que apropriado). Não pretendo, porém, colocar as minhas palavras à frente de todos os que se servem delas para partilhar os seus propósitos e para decidir o nosso futuro mais próximo. Está este jornal efetivamente recheado de informações que são do interesse geral. Conhecem já a minha paixão pela poesia, por isso, resolvi desta vez partilhar convosco um poema, de um poeta alemão do século XX, autor também do pensamento que encabeça este editorial. Penso que melhor do que eu, fará ele jus ao momento presente.
Perguntas de um operário letrado
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias.
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou, Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos.
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas.
Bertolt Brecht


