Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo. Fernando Pessoa
Em pleno verão, o corpo pede descanso, o espírito clama por um afastamento da habitualidade. Todos merecem, todos merecem. Fugir um pouco da rotina, que também é saudável, dentro das circunstâncias, e sonhar com o mar ou com o campo. Porém, desde há uns anos para cá, associo a palavra férias aos amaldiçoados incêndios – e não é a primeira vez que deles falo. E eles não se fazem esperar. Como monstros diabólicos das histórias de terror, parece que estão à espera das advertências dos meteorologistas para as tornarem em autênticas acendalhas. Têm sido tão frequentes que já têm vida própria. Pensam, agem, escolhem o lugar para se manifestar. É irónico, evidentemente, porque, no momento em que escrevo este editorial, a televisão transporta-me para o local onde as chamas proliferam e lambem tudo é que é vida. Que crueldade! A floresta não arde por vontade própria! É um autêntico clima de guerra e as vítimas são não apenas os homens, são também a fauna e a flora. A Terra é, na verdade, a casa comum de todos os seres que connosco vivem, porque é que a inconsciência grassa e continua impune? Numa tentativa de silenciar a indignação e a raiva perante estas situações que atingem o mundo inteiro, e lamentando que os criminosos não estejam a ler estas linhas, é oportuno dizer que a História nos tem revelado, ao longo dos séculos, um indubitável respeito pela Terra, considerada como entidade poderosa, da qual dependemos. Sabemos que é o terceiro planeta mais próximo do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar e é por vezes designado como Mundo ou Planeta Azul – a menina dos olhos da galáxia. É a casa de milhões de espécies de seres vivos, incluindo os humanos. A Terra é o único corpo celeste onde é conhecida a existência de vida, fornecendo-nos elementos essenciais para a sobrevivência e bem-estar, além de oferecer benefícios psicológicos e espirituais. Na mitologia grega, Gaia é considerada a Mãe-Terra, uma divindade primordial e geradora de todos os seres. Ela surgiu do Caos, juntamente com outras divindades primordiais, e é vista como a força vital da natureza, a protetora da Terra e a mãe de inúmeros deuses, titãs, gigantes e criaturas. Na mitologia nórdica há uma árvore mítica e sagrada, a Yggdrasil, que é considerada a árvore da vida que sustenta os nove mundos, conectados pelas suas profundas raízes. É conhecida também a relação entre os povos indígenas e as florestas, que diz respeito à proteção do planeta e da vida. Eles são os guardiões das florestas. A conexão com a Natureza é um tema que percorre a literatura nacional e internacional; muitos autores a descrevem como berço das suas emoções ou como confidente ou cenário das suas paixões. Exemplifico, logo no início da nossa nacionalidade, com as célebres Cantigas de Amigo, da Poesia Trovadoresca, ou com Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa, aqui chamado tantas vezes, defensor de um paganismo que se manifesta através da sua visão sensacionista e da sua relação com o mundo natural. E muito mais se poderia dizer sobre esta casa maravilhosa que muitos teimam em destruir.
Assim sendo, ficam as perguntas, evidentemente retóricas, mas dirigidas às consciências de cada um: qual a solução para erradicar de vez com tamanha crueldade? Não têm tido os nossos governantes mão leve para com os criminosos? Que nome tem esta “doença” que incita para a destruição de seres inocentes e que apenas nasceram para desfrutar da sua existência na Terra? Não terá ela cura? Não deveriam ser tomadas medidas mais drásticas?
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar…
Alberto Caeiro


