livro Flama

“A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da vida – que é não ser apagada de todo pela morte.” Eça de Queiroz

Decidi-me por Eça, depois de ter andado durante algum tempo à procura de um tema para o editorial. Tantos são os assuntos, que escolher é tarefa sinuosa. Especialmente depois de férias que catapultam toda a sociedade para a reabertura das aulas e para o início do ano letivo. É interessante, porque, para mim, e penso que também para muitas pessoas, o início do ano coincide com o início das atividades letivas. E inevitavelmente falaríamos, se essa fosse a opção, da falta de professores, do desagrado de muitos, etc, etc. Seria repetir o que todos já sabemos. Voltemos, pois, ao Eça. Os seus restos mortais encontram-se em Santa Cruz do Douro, concelho de Baião, distrito do Porto, desde 1989. Em 1990 foi criada a Fundação Eça de Queirós, e instalada em Tormes, com o objetivo de divulgar e promover a figura de Eça de Queirós, dinamizar a cultura através de exposições e sessões culturais, encontros, seminários e ainda preservar e valorizar o seu património, destacando o da sua Casa-Museu. Quer, no entanto, o destino, melhor, o tempo, ou então o interesse de honrarias futuras que Santa Cruz não seja a última morada. Diz-se que a maioria dos netos manifestou interesse na trasladação dos seus restos para o Panteão Nacional, em Lisboa, inaugurado em 1966, onde se encontram sepultadas várias figuras da história política portuguesa, como Teófilo Braga, Sidónio Pais, Óscar Carmona e Humberto Delgado, assim como, das letras nacionais, nomes que vão de Almeida Garrett a Sophia de Mello Breyner e Aquilino Ribeiro, passando pela fadista Amália Rodrigues e pelo futebolista Eusébio da Silva Ferreira.

Se colocar os restos mortais num Panteão Nacional permite honrar a figura do homem e do escritor, como comprova o documento publicado no Diário da República, em 2021 “em reconhecimento e homenagem pela obra literária ímpar e determinante na história da literatura portuguesa”, então estou de acordo, embora a minha opinião em nada altere as decisões já tomadas, ou em fase de discussão, visto que, depois de agendada a trasladação para o dia 27 deste mês, ela teve de ser adiada, devido a uma providência cautelar erigida pelos netos discordantes, visando impedir a mesma. Desde já, se isso acontecer, o concelho de Baião ficará mais pobre. É certo que a Casa-Museu continuará e a Fundação também, o que permitirá de qualquer forma relembrar o escritor. Usando a técnica que o autor tanto prezava, o humor, permitam-me que diga que a casa só continua ali porque não pode ser levada para a capital e há certamente gente nobre que dela continua a cuidar, doutra forma, acho que poderia acontecer o mesmo que aconteceu a outros locais que abrigaram a memória de poetas e escritores nacionais: largadas à voracidade do tempo ou tragadas por um qualquer prédio com fins económicos particulares. (Não acham que a expressão “Lisboa é Portugal e o resto é paisagem” continua viva? Aliás, refira-se que esta expressão ligeiramente adulterada, mas simplificada, nasceu num livro de Eça, Os Maias, pela voz de uma das personagens mais caricatas, Ega, quando diz “Lisboa é Portugal (…) Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!”).

Argumentos e disputas à parte, continuo a defender que a melhor forma de honrar um autor e de manter viva a sua memória é ler a sua obra. Mas como pode um país acreditar na importância da leitura, quando um ministro descredibiliza descaradamente os professores – os maiores guardiões do livro e da cultura, responsáveis pelo crescimento das gerações futuras -, afirmando que bastam dois anos para a sua formação? É de gritar de indignação. Entende-se por que razão os nossos jovens fogem do país, depois de terem frequentado durante 4 ou 5 anos, pelo menos, a universidade, que ele parece não conhecer.

Como podemos constatar, são os temas e as conversas que mantêm viva a comunicação e os jornais. E sobretudo as pessoas. As que estão vivas e aquelas que deixaram ou deixarão a sua marca na História, da pior ou da melhor maneira.