fbpx
Palavras sem obras

“Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas.” Confúcio

Ninguém sabe definir o tempo, ninguém tem capacidade para o controlar; as estações do ano permitem ao homem domá-lo, aparentemente, e organizar a sua vida a partir delas; para muitas pessoas, o ano letivo ou escolar constitui uma forma de entrar de novo no ciclo precioso e necessário da rotina que também enriquece a vida. Porque estamos no outono que traz a reabertura das aulas, começarei o ano com uma pequena história, extraída do meu livro “Hélios”, que será apresentado em breve.

A sabedoria
Era uma vez um homem muito sábio. Vinha gente de todo o lado à procura dos seus conselhos, pessoas de todas as idades, homens de todas as classes, mulheres de todos os perfis, de todas as castas. Conhecia as pessoas mais poderosas da terra, mas também as mais humildes. Respondia a todas as perguntas que lhe colocavam com o mesmo carinho, com o mesmo entusiasmo, com a mesma dedicação. Todas as noites, antes de dormir, ele olhava as estrelas que brilhavam no firmamento, e achava que um dia, porque era um homem sábio, ocuparia um lugar ao seu lado; se elas dominavam o universo distante, ele dominava sobre tudo o que o rodeava, tudo aquilo que lhe era próximo. Numa dessas noites teve um sonho. Passeava sozinho numa floresta, quando se apercebeu de que tinha muita sede. A dois passos dali corria um ribeiro; as suas águas transparentes deslizavam de pedra em pedra, livres. Debruçou-se para saciar a sede, porém, a água secou de repente e no fundo viu apenas rochas e areia. Um pequeno peixe quase enterrado na areia perguntou-lhe:
– Conheces alguma forma de me salvar?
O homem muito sábio, pela primeira vez, não sabia o que responder.
Continuou a caminhar pela floresta, durante muito tempo, porém, não conseguia encontrar a saída.
No dia seguinte, o homem continuou a ser muito sábio, continuou a aconselhar homens, mulheres de todas as castas, gente vinda de todos os lados, e nessa noite o sonho voltou. Era a mesma floresta, o mesmo ribeiro, o mesmo peixe.
– Conheces alguma forma de me salvar?
Então, ao terceiro dia, o homem muito sábio resolveu procurar uma resposta.
Viajou por todo o mundo, percorreu caminhos e estradas, navegou rios e mares, perguntou a velhos e novos, homens e mulheres, apanhou sol e chuva, teve fome e teve sede, calor e frio. Não encontrou qualquer resposta.
Regressou a casa, triste e desiludido. Já não podia olhar o céu, pois já não teria um lugar ao lado das estrelas e já não tinha coragem para responder nem para dar conselhos aos outros, porque ele próprio não conseguia responder a uma questão tão simples. Sentou-se num banco de pedra a descansar. Estava tão cansado que algumas lágrimas de desgosto se soltaram dos olhos tristes e vieram cair na areia seca, em cima dos pés cobertos de pó e exaustão. Foi então que uma criança se aproximou. Afagou-lhe os cabelos brancos. Nunca tinha visto um homem velho a chorar, devia estar muito doente.
– Estás doente? – perguntou.
Ele levantou a cabeça inclinada para o chão e fez-lhe a mesma pergunta que o levara a correr mundo, a pergunta do seu sonho.
A criança começou a rir.
– É por isso que estavas a chorar? É muito simples, bom homem, por que não lhe perguntas se ele conhece?
O homem muito sábio sorriu. E finalmente compreendeu.