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Sem poesia, Prémio internacional

“Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.” Marcel Jouhandeau

A propósito da temática maioritariamente referida neste número – o associativismo – apraz-me falar hoje em lendas. E porquê? Vejamos. As lendas são histórias inventadas que, de tão contadas e repetidas, se perpetuam no tempo e na memória de um povo, podendo transformar-se em verdades inquestionáveis. Em tempos de narrativas orais, elas eram validadas e representavam sabedorias inatas que chegaram a reger gerações. Dizer hoje que alguém é uma lenda significa que é possuidor de uma importância unanimemente e universalmente aceite. Por cá, e a título de exemplo, temos a lenda de S. Valentim, as lendas de S. Gonçalo, as lendas associadas a lugares específicas, ou a acontecimentos históricos, como a lenda de D. Sebastião, que, diz-se, regressará numa manhã de nevoeiro, para salvar Portugal, tão prima da do Rei Artur que aguarda numa ilha o tempo oportuno para o seu regresso. No Oriente, encontramos outras associadas a outras divindades um pouco estranhas para nós, mas que valerá a pena conhecer. Segundo conta uma lenda hindu, houve um tempo em que todos eram deuses. Porém, as pessoas começaram a abusar tanto de sua divindade que Brahma, o Mestre dos Deuses, tomou a decisão de lhes retirar o poder divino e resolveu escondê-lo num lugar onde seria difícil reencontrá-lo. O grande problema era encontrar um esconderijo adequado. Para poder solucionar esse problema, Brahma convocou um conselho envolvendo os deuses de escalão mais baixo. A primeira ideia foi enterrar a divindade das pessoas num lugar qualquer na terra. “Não”, replicou Brahma. “Isso não é suficiente, pois o homem é aventureiro, vai cavar e vai encontrá-la.” Os deuses sugeriram, então, lançá-la no fundo dos oceanos. Brahma, mais uma vez, recusou a ideia, pois achou que seria fácil ao homem explorar as profundezas dos mares e recuperá-la. “Não sabemos onde escondê-la, pois não existe na terra nem no mar lugar que o homem não possa alcançar um dia” – concluíram os deuses. Sem saber o que fazer, Brahma resolveu socorrer-se então da sabedoria do Grande Deus Mahadeva, o Senhor Shiva. “Eis o que vamos fazer com a divindade do homem”, disse Mahadeva. “Vamos escondê-la nas profundezas dele mesmo, pois é o único lugar onde ele jamais pensará em procurá-la. O único caminho que o tornará capaz de reencontrar este poder será através de Jñana (conhecimento). Mas ele terá ainda que vencer os poderes de Maya (ilusão) e de Anava (egoísmo). Para isso, terá que reaprender a controlar a mente e os sentidos, observando a Lei Divina do Karma (causa e efeito). E assim, os homens seguem, caminham, procuram, dão voltas à Terra, voando, explorando, escalando, mergulhando e cavando, em busca de algo que, na realidade, se encontra dentro de eles mesmos.

Esta lenda encontra-se disseminada na literatura e poderá aplicar-se a todas as áreas da personalidade, como objetivo da Humanidade Consciente, podemos concluir.

Não me atrevo a dizer que é uma atitude divina, mas tenho a certeza de que é uma luta contra o egoísmo e o egocentrismo; o associativismo procura, acima de tudo, eleger valores essenciais na comunidade, como a solidariedade, a participação e a cooperação. Pode contribuir para que cada elemento que constitui a comunidade alcance maior expressão social, política, económica e cultural. A exemplo das abelhas e de alguns animais que sobrevivem apenas porque vivem em grupos organizados com um objetivo comum, talvez esta atitude de união se perpetue no tempo, salve o homem do egoísmo e se transforme, por isso, numa extraordinária lenda.