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“A vida é o dia de hoje/ A vida é ai que mal soa/ A vida é sombra que foge/ A vida é nuvem que voa”

Ainda hesitante sobre o assunto a tratar no editorial deste mês de início de verão, tão irregular e tão concordante com a atipicidade dos tempos, solicitaram-me para responder a um pequeno inquérito que contemplava apenas três perguntas: Que livros tenciona ler este verão? Que obra recomendaria para ler? Que género literário prefere? Tentarei responder de forma mais objetiva e direta possível, como é evidente, porém, não me coíbo aqui de tecer um simples comentário a tudo isto, agradecendo desde já ao seu autor pela ideia que contribuiu para inspirar a redação deste editorial.

Em primeiro lugar, quem vive dos livros, acompanhado de livros ou quem ama os livros, tem sempre um (pelo menos) à espera na estante que ainda não foi lido, que precisa de ser relido ou que já foi esquecido. Em último recurso, quem pretender sentir o cheiro que exala um livro novo, acabadinho de nascer, tem sempre hipóteses de viajar até às feiras do livro que começam a abrir as suas portas e agora tão sequiosas de visitantes-leitores. Por isso, não sei ainda que livros tenciono ler, mas como sou escritora, garanto que os meus, pelo menos aqueles que se encontram em fase de elaboração, passarão pelo meu olhar e pelo meu sentido crítico que o distanciamento requer.

Quanto à segunda questão, normalmente formulada a quem lê muito ou a quem gosta de ler, também não sei muito bem que responder. Aconselhamos sempre aquilo de que gostamos, embora possa não coincidir exatamente com aquilo de que os outros gostam. Prefiro sempre os clássicos e lusófonos. Poderia sugerir Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Fernando Pessoa, e tantos outros, com os quais se mergulha verdadeiramente no âmago da nossa língua. Ou então Mia Couto, que graceja e brinca com as palavras e com as normas, joga com as sílabas e com as ideias, constrói autênticos jogos dinâmicos e vivos, recriando o léxico e arrastando a paixão pela vida, pintalgada de magia. Ainda sobre este assunto, acrescentarei que, na área da literatura, auguro que seria pertinente introduzir uma atividade fidedigna e sóbria, a de comentador de livros (se assim se poderia chamar). Alguém cujo papel seria o de ler um livro e comentá-lo com correta isenção, para aconselhar o público à sua aquisição. E porquê? Porque muitas vezes adquirimos aquilo que conhecemos do autor, escolhemos o livro porque já conhecemos o autor – o que não deixa de ser legítimo – e não o livro propriamente dito. Esse vai sendo descoberto, à medida que vai sendo lido. E colocamos de lado livros extraordinários, porque os autores nos são completamente estranhos.

Por último, prefiro, sem dúvida, a poesia. Ela deve ser lida, de barriga para o ar (desculpem a ligeireza da expressão, mas de seguida vão entender) a contemplar o que há de mais belo e puro em redor: o azul do céu, o sol quente a afagar e a temperar as nossas energias, o verde calmo a tombar pelas encostas. O que falta? Apenas o cantar dos pássaros e dos riachos a fazer coro com a música da poesia. E para terminar, um beijo, ou dois, ou melhor ainda, três, de alguém que verdadeiramente amamos.

BEIJO
Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente…
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo…
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!

Saciar-me? louco…
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois…

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas…
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinho, e justa…
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são… quantas?
Três!

João de Deus, in ‘Campo de Flores’