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Sem poesia, Prémio internacional

“Sem poesia não há humanidade” – Teixeira de Pascoaes

Há palavras que não se reduzem a si próprias. Uma delas é a palavra Natal. É do tamanho do universo e da infinitude. Pode ser dita ou vivida de várias formas: inspirada, absorta, descontraída, ansiosa, grata, furiosa, vulgar. Porém, certo é que transporta com ela uma contínua aura de emoções, de sentimentos, de memórias e de nostalgia. Originalmente destinada a celebrar o nascimento do solstício de inverno, a festividade foi adaptada pela Igreja Católica a partir do século IV, e no dia 25 de dezembro, celebra o nascimento de Jesus Cristo, embora muitos historiadores defendam que esta celebração tenha origem anterior. Os séculos e as pessoas que não sobrevivem sem histórias, alimentadas pela criatividade e pela imaginação, foram-lhe imprimindo variados cambiantes. E foi assim que nasceu o Pai Natal, inspirado, diz-se, num arcebispo, na Turquia, que costumava ajudar quem estivesse com necessidades financeiras, lançando moedas de ouro pelas chaminés. A lenda fecunda a realidade, como dizia Fernando Pessoa, por isso, sorrateiramente vai entrando nas casas de toda a gente (E é quase uma heresia não acreditar no Pai Natal, já que ele anda por todo o lado, bem agasalhado e vestido de vermelho, ao contrário do Menino Jesus, nuzinho, deitado nas palhinhas!). Este introito para quê, perguntará o leitor deste jornal, a saborear uma rabanada ou uma fatia de bolo-rei. Muito bem. Para justificar, sem qualquer tipo de surpresas, que também eu adoro o Natal. Sobretudo porque, para lá das compras, das prendas, dos gestos, dos cansaços, das pressas, há o brilho de palavras bem mais simples e mais verdadeiras: a família, o calor, o amor. Porque sinto que neste dia há sempre um momento, por muito fugaz que seja, em que, apesar de tudo, a humanidade está unida, e que, mais do que nunca, habita numa circunferência de luz e de paz. Ilusão? Loucura? Sonho? É certo que sim. Talvez nos falte apenas sincronizar o momento certo para sermos maiores do que nós. A poesia e a música são roteiro e guia. Saúdo-vos, desejando-vos um Feliz Natal.

A mãe e filho

Teu ser tragicamente enternecido,
Em desespero de alma transformado,
Vai através do espaço escurecido
E pousa no seu tumulo sagrado.

E ele acorda, sentindo-o; e, comovido,
Chora ao ver teu espirito adorado,
Assim tão só na noite e arrefecido
E todo de ermas lágrimas molhado!

E eis que ele diz: “Ó Mãe, não chores mais!
Em vez dos teus suspiros, dos teus ais,
Quero que venha a mim tua alegria!”

E só nas horas em que a Mãe descansa,
É que ele inclina a fronte de criança
E dorme ao pé de ti, Virgem Maria!

Teixeira de Pascoaes, in ‘Elegias’

HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga, Antologia Poética