Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.
n7G8ivmFVbE

Jornal de Vila Meã – Como está a viver este momento?

Hugo Magalhães – Do ponto de vista pessoal, tenho mantido a rotina como tinha antes, ou seja, venho trabalhar todos os dias como fazia antes do início da situação de emergência. Do ponto de vista de trabalho, temos uma quebra enorme. Neste momento estamos com menos 90% de faturação do que estávamos até à primeira semana de março porque logo na semana anterior ao fecho das escolas, no dia 13, percebemos que já íamos ter uma quebra muito grande na semana seguinte. Desde essa altura, nós estamos a faturar, por semana, menos 90% que numa situação normal. Grande parte da equipa neste momento está em lay-off. No total temos doze pessoas a trabalhar normalmente e neste momento devemos ter quatro ou cinco pessoas a tempo inteiro.

JVM – Como pensam contornar as dificuldades que se avizinham? 

HM – Neste momento ainda há muita incerteza. Pelo menos no nosso caso é uma das situações mais difíceis. Falando na área da restauração e da hotelaria, que são os nossos maiores clientes, claramente o mercado vai mudar. Há duas incertezas muito grandes, por exemplo, vai mudar como? Como vai esse mercado trabalhar nos próximos dois anos?  A questão dos hotéis, será que vão conseguir abrir ou não vão abrir se tiverem a limitação a 25% da taxa de ocupação? Porque eles não são rentáveis com essa taxa de ocupação. A mesma situação para os restaurantes, será que vão abrir? Se sim, em que condições? Como é que o mercado vai ser daqui a uma semana, um mês ou dois meses? A segunda grande incógnita é: qual é a dimensão do mercado? Ou seja, nós temos neste momento as empresas em Portugal e a estrutura que existe é para determinado volume de negócios, ou é para determinado PIB, mas nós sabemos que o mercado vai diminuir. Há setores que vão diminuir mais do que outros mas esta diminuição do mercado ainda é uma grande incógnita, que nos vai obrigar a todos, ou a determinados setores, a terem que se reinventar e mudar de estratégias, sob o risco de as empresas se tornarem não sustentáveis ou então vamos ter de fazer processos de reestruturação muito grandes, com despedimentos massivos para que as empresas possam sobreviver com custos fixos, mais baixos, durante os próximos dois anos.

JVM – Considera que as medidas tomadas pelo estado estão a ser as mais corretas?

HM – Este é um momento em que temos de pensar em estratégias de curto prazo ou imediatas. É preciso depois pensar em estratégias mais de médio a longo prazo. Do ponto de vista mais imediato, eu acho que as medidas tomadas pelo Governo vão no bom sentido, ou seja, elas estão a tentar dar liquidez às empresas e estão a tentar que as empresas tenham menores custos fixos pelo menos no prazo de 90 dias, isto é, a liquidez através das linhas de tesouraria e a diminuição dos custos fixos através das medidas de lay-off. Obviamente que nós sabemos que a crise vai acentuar-se nos próximos meses e, por isso, estas medidas de curto prazo, já estão a tornar-se obsoletas. Voltando ao setor da hotelaria ou até ao setor mais alargado do turismo, nós sabemos que o lay-off vai ter de ser alargado por mais de um ano, para que todo o setor hoteleiro e do turismo não se desmantele por completo. Por isso, no ponto de vista de curto prazo, eu acho que as medidas vão no bom sentido. Obviamente que elas implicam um adiar da despesa para grandes parte das empresas. Sejam as moratórias, que não estamos a falar para já de perdões de dívida, estamos a falar em adiar o pagamento de dívidas. Isto levanta-nos a médio e longo prazo um grande problema. O mercado como falamos há pouco, vai ser mais pequeno, ou seja, praticamente todos os setores vão ter uma diminuição de grande volume de negócios nos próximos 18 a 24 meses e por isso as moratórias e os financiamentos podem vir a agravar, a médio prazo, a situação das empresas, porque estamos a partir do princípio de que as empresas daqui a 6 meses vão ter capacidade para pagarem os impostos e as amortizações à banca, dessa altura, mais as destes 6 meses que estão para trás, ou mesmo quando, no caso de algumas moratórias, alguns bancos estão a fazer moratórias de 12 meses. Estamos a partir do princípio de que, daqui a 1 ano, as empresas vão ter capacidade para pagarem as amortizações dessa época, mais as que estão a ficar para trás. Do ponto de vista económico, é muito difícil achar que isso será viável. Por isso eu acredito que o governo e as instituições europeias, quase de certeza, sob pena de nós termos aqui falências em massa, principalmente dos países da periferia, entre os quais está Portugal, vão ter de pensar em estratégias de fundo perdido ou de perdão de dívida ao setor empresarial. Eu acho que vai ter de passar por emissão de moeda através do Banco Central Europeu que financia os bancos e os bancos provavelmente irão perdoar dívida às empresas e será provavelmente o BCE a assumir a distribuição desse capital que no fundo fica sobre a emissão de moeda do BCE. Isto não está previsto neste momento nos tratados mas é muito difícil acreditar numa economia híper endividada como a economia portuguesa, a espanhola, a italiana e a grega vão conseguir assumir o custo brutal de endividamento que estão a fazer neste momento.

JVM – Que mensagem gostaria de deixar aos seus clientes e à comunidade em geral?  

HM – Primeiro, de confiança, porque nós já passamos crises também muito fortes no passado. A crise de 2009 e 2014 foi uma crise muito violenta e nós fomos capazes em comunidade, de trabalhar em conjunto de forma a que o país conseguisses sair, melhor do que alguns países saíram. Temos capacidade de trabalhar em equipa, se as instituições e as empresas se ajudarem umas às outras. É importante fazermos brainstorming. Eu acho que mais uma vez isso está a verificar-se. E por isso esse é o primeiro lado, de que é importante mantermos a confiança e trabalhar em conjunto. Segundo ponto que acho importante é as empresas conseguirem aguentar ao máximo os postos de trabalho. Era mais fácil neste momento as empresas diminuírem os recursos humanos que têm mas isso só iria acelerar uma espiral recessiva. Vai acontecer, mas quanto mais conseguirmos adiar melhor, porque nós também sabemos que provavelmente a saída, ao contrário da crise anterior que nós não sabíamos quando é que a saída ia acontecer, neste momento temos uma expetativa que o problema de saúde pública se vai resolver de 18 a 24 meses. Portanto, segundo, quase apelo, que eu faria às empresas é que todos nós empresários, na medida do possível, consigamos aguentar o máximo de postos de trabalho. O terceiro apelo que eu faria era de as pessoas se manterem atualizadas do ponto de vista da boa informação. Neste momento as fake news são um problema grave a nível da informação. Nós temos excelentes jornais por todo o país, desde jornais locais, como é o caso do Jornal de Vila Meã, até aos jornais nacionais. Os jornalistas estão a fazer um trabalho incrível nesta fase e nós sabemos que os meios de comunicação estão a viver um momento muito difícil ao nível do financiamento, neste caso, da publicidade. É muito importante as pessoas manterem-se atualizadas, não tanto pelas notícias das redes sociais mas principalmente pelas noticias dos órgãos de informação oficiais e que têm jornalistas reais a trabalharem por trás. Um dos maiores perigos que nós podemos ter é uma sociedade que se baseia em boatos ou em mitos e em má ciência, quando neste momento temos milhares de cientistas a trabalhar no mundo e a darem informação aos jornalistas. É nessa informação que nós temos de basear as nossas decisões, sejam as decisões empresariais, sejam as decisões individuais.

JVM – Gostaria de acrescentar algo mais, que considere pertinente?

HM – Para os colegas de outras empresas que nos estejam a ouvir, também diria mais uma coisa. Esta é uma fase que temos de trabalhar em duas perspetivas. Uma realmente de curto prazo, de sobrevivência e de tentarmos que as empresas não se desmantelem nesta quebra incrível de volume de negócios que quase todas as empresas estão a enfrentar. A segunda é o esforço de adaptação, ou seja, uma visão mais de longo prazo. Dificilmente nós vamos voltar a trabalhar da mesma forma que trabalhávamos há um mês e meio atrás e por isso é muito importante as empresas começarem a pensar desde já em alternativas, seja em tentarem buscar clientes que estão nas suas fronteiras ou que estavam nas suas fronteiras atuais de trabalho e que não eram seus clientes. Outras formas de trabalhar, outras formas de comunicar como, por exemplo, através das novas tecnologias. Vamos ter de nos reinventar até porque há toda uma geração de valor, por exemplo, das compras online, que já era forte há um mês, mas que agora se vai tornar preponderante. As empresas desta região vão ter de fazer um esforço também de atualização nesse sentido.